Estava frio. Um frio de nevoeiro. Caminhava sozinha na rua quando me deparei com um cenário já familiar, um típico fenómeno de dejá-vu.
Percorria o mesmo caminho pelos meus próprios pés,apesar de mais pequenos, protegidos por umas botinhas salpicadas pela chuva. O guarda-chuva colorido era como uma barreira entre mim e aquele céu nocturno espelhado pela delicadeza das gotas. O meu casaquinho impermeável deixava-me confortável e só me apetecia sorrir. Aquela rua estreita que me acompanhava era-me familiar e o meu andar tomava o seu rumo sozinho. Eu era apenas guiada pela aura que me rodeava, pelo cheiro a inverno e a humidade das folhas, pela inocência do ser criança. Sentia-me livre, leve enquanto saboreava aquele conjunto de emoções que me levantavam o ego. Era como se estivesse a planar... À minha esquerda candeeiros de rua me piscavam de vez em quando o olho em sinal de aprovação, à minha direita as montras natalícias davam luz ao meu caminho.
Mudando de rua dirigia-me agora, ainda pequenina, para uma casa imponente e de onde saiam sons variados, melodias agradáveis. "Parece uma caixinha de música..." foi o pensamento que sobrevoou por entre as minhas perguntas. Eu era como uma formiguinha olhando debaixo para cima para aquela paisagem estranha mas familiar. Entrei, (não por minha vontade pois o meu corpo ainda tomava as suas decisoes sem me pedir qualquer autorização ) e fiquei parada à porta de um hall movimentado. A minha segurança foi que ninguém deu pela minha pequena presença. Ninguém deu pela minha presença??
Era como uma intrusa, mas invisível. Estava deslocada naquele corredor de portas com números, no passear daqueles instrumentos olhando do rés-do-chão para cima para as pessoas que passavam por mim. Deparei-me com um porta um bocadinho maior que as outras e contra a minha vontade entrei. Estava vazio. Ao fundo um piano me atraia com o seu brilho negro e intrigante. Aproximei-me e sentei-me no banquinho aveludado enquanto as minhas pernas balançavam ao som de uma música que imaginava na minha cabeça. Ao tocar numa das teclas os meus olhos ganharam brilho e o ecoar daquele som durou e durou, uma eternidade, enquanto o pequenino do meu ser (olhar expressivo, cabelo curtinho e mangas com dobra) sonhava com tudo o que estava a acontecer. "Belisquem-me!" No entanto, houve outro brilho que me chamou a atenção. Deitada no palco, estava uma guitarra nova, cor de mel e com um brilho lunar nas cordas. Desta vez fui eu que quis tocar apenas e quando dei por mim estava sentadinha no meio daquele estrado de madeira, pernas à chinês e guitarra no colo, até experimentar uma das cordas e voltar ao meu sonho. Este sonho foi mais longo do que o som daquela nota no piano, preencheu-me e senti-me uma princesinha nas luzes da ribalta, iluminada por aquele espírito livre e melodioso. Percebera o sentido daquilo tudo apesar de ainda me sentir uma intrusa às escondidas a partilhar o tesouro com o meu mundo.
Ouvi vozes. Um grupo de pessoas, de desconhecidos, entrou pelo auditório dentro acompanhado de gargalhadas sólidas e pelo brilho metálico de alguns instrumentos que transportavam na mão. Corei e corei e depois quando voltei larguei tudo aquilo, peguei no meu guarda-chuva e passei no meio deles a correr, saíndo porta fora. Aquele susto bloqueeou-me o pensamento e só rezava por não terem dado por mim. Corri, cresci, e voltei à realidade.
Estava frio. Um frio de nevoeiro. Caminhava sozinha na rua, observando a frescura daquela noite. À direita o tremeluzir de comovência da luz dos candeeiros. À minha esquerda as montras natalícias davam luz ao meu caminho. Chegada a "casa" dirigi-me à sala, sentada com as pernas à chinês, peguei na MINHA guitarra e sonhei.
4 comentários:
Que esta princesinha, encontre sempre a luz e a música que a encantam, e nós possamos usufruir do brilho da sua escrita, da arte da sua música e do encanto da sua amizade.
eu mato-te
acabei o de ler e reparei que os meus olhos estavam molhados e Bia meu amor...esta perfeito perfeito
amo-te a ti
e amo a musica
«Perfeito» não chega!
Quando arranjar palavras adequadas para comentar este texto, eu passo por aqui sim?
Continua...
Lindo Bea! Simplesmente do Best!! :D
Dos melhores mesmo...
Sentes o que escreves, vives o que sentes e assim transmites algo maravilhoso como este texto!
Te adoro linda! <3
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