terça-feira, 27 de maio de 2014

Gaivotas, vento, àgua e mar

Hoje sonhei contigo. Tu, os teus amigos, uma praia e uma grua. 
Retiravam do mar, de forma incessante, algo. Algo que me deixava expectante, mas nervosa. Um certo medo do resultado. 
A imponente grua pairava na direcção da linha média da minha cabeça, e o coração cada vez mais forte.
Mas tu, falavase rias com o teu pólo branco e ar veranil. Frente inchada e sorriso rubro. Cor de quem andou apanhando os raios da felicidade, partilhando-a com os amigos próximos, também presentes naquele cenário, também sorrindo.
Que querias tu dali içar? Içar-me de vez, de volta a ti? Queria, muito. Mas não posso. A minha missão é fazer-te sorrir sempre nos sonhos, para nunca perderes a tua luz, aquela que a maldita doença quis arrancar. Aquela que nos fugia por entre os dedos entrelaçados, no último aperto quente e frio das nossas mãos. 
Vi-te lá. Viste-me lá e partiste. E agora vamos juntos à praia. Quero que me acompanhes sempre. Acompanhas-me sempre. E quero-te sorrindo. Ouvir a tua voz dá-me náuseas agora, e a tua saudade repele-me do mundo. Impele-me ao choro.
Choro desesperado de quem quer e nao alcança, de quem anseia pelo vazio, choro do que falta e de quem falta.
Faltam-me os teus ouvidos. Faltam-me os teus olhos enormes e expressivos, falta-me o teu sorriso sempre caloroso. Falta-me que me chames e me abraces, que me leves a almoçar e a passear, que desabafes e me ouças como sempre foste, os meus melhores ouvidos. Ouvidos de fala, ouvidos de música, que sumiu, que esvaneceu, que apodreceu dentro de mim. Não quero mais ouvi-la, não quero mais senti-la, não quero mais!
Para onde iria a grua? Porquê ânsia? Levar-me-ia até ti? 
Falavas comigo com uma enorme presença e acordei a desejá-la ardentemente. Vazio. Revolta. Não quero mais levantar-me da cama, neste dia. Quero que o despertador não tenha tocado, quero voltar a adormecer, quero voltar à praia. Volta, cabeça maldita! Não vai acontecer.
Fé? Que raio de fé é a que nos leva a pensar que no ar estás tu?  Que nem o cheiro lá paira? (era o que dirias). Mas tenho de a ter. A fé de que estás comigo e que estás feliz por mim.
Voltei a escrever hoje. Um escrever molhado. Um escrever rápido que tanto evita as palavras como as vomita repentinamente. Foi isso, um vómito de dor que precisava sair. Preciso escrever mais mas não sai nada. 
Levar-me-ia a grua ao céu para gritar mais alto e chamar por ti?
"Volta!"
Por favor.

Bibocas