quarta-feira, 20 de maio de 2015

Ontem, hoje e amanhã

"Por vezes pergunto-me o que me terá movido para ficar tão estagnada. Há sentimentos que tive de varrer para dar lugar a outros. E há dias que ambos me atropelam, me consomem toda e qualquer réstia de energia.
Por isso, fico inerte, bruta e sem vontade. Sem vontade de nada. De ver, ouvir ou sequer responder. Toda a ilusão está presa no meu mundo, aquele em que me perco nesses dias e me faz esquecer onde estou ou com quem. Isso magoa. Eu sei. Mas eu sou assim. 
Porque um grande vazio ficou em mim desde que partiste. E há coisas que o tempo não está a ajudar. E essa fragilidade afasta-me de quem amo, mesmo amando, mesmo querendo. Estagnei a capacidade de ser espontânea e dizer o que sinto. E fico frustrada por não conseguir aproveitar a efemeridade desta vida, por querer fazer tudo e ao mesmo tempo nada fazer.
Desculpa, a culpa não é tua. Mas antes era mais fácil."

Sim, são palavras de ontem que li hoje. E parte sinto da mesma forma, parte da frustração flui. E a saudade permanece sorrindo. Dos momentos do ontem, do que já foi e que podia voltar a vir. Mas não.E se juntasse o ontem ao hoje? Combinaria? E se todas as peças se voltassem a juntar? Funcionaria?
A resposta não existe. Nunca o vou saber. Mas há sempre aquele bichinho que gostava de o descobrir.
Porque nada do hoje poderei descartar, muito menos do amanhã que ainda não agarrei. Mas e esse passado? É recuperável? E tudo o que vem com ele? Foi de vez?

Never know.




terça-feira, 27 de maio de 2014

Gaivotas, vento, àgua e mar

Hoje sonhei contigo. Tu, os teus amigos, uma praia e uma grua. 
Retiravam do mar, de forma incessante, algo. Algo que me deixava expectante, mas nervosa. Um certo medo do resultado. 
A imponente grua pairava na direcção da linha média da minha cabeça, e o coração cada vez mais forte.
Mas tu, falavase rias com o teu pólo branco e ar veranil. Frente inchada e sorriso rubro. Cor de quem andou apanhando os raios da felicidade, partilhando-a com os amigos próximos, também presentes naquele cenário, também sorrindo.
Que querias tu dali içar? Içar-me de vez, de volta a ti? Queria, muito. Mas não posso. A minha missão é fazer-te sorrir sempre nos sonhos, para nunca perderes a tua luz, aquela que a maldita doença quis arrancar. Aquela que nos fugia por entre os dedos entrelaçados, no último aperto quente e frio das nossas mãos. 
Vi-te lá. Viste-me lá e partiste. E agora vamos juntos à praia. Quero que me acompanhes sempre. Acompanhas-me sempre. E quero-te sorrindo. Ouvir a tua voz dá-me náuseas agora, e a tua saudade repele-me do mundo. Impele-me ao choro.
Choro desesperado de quem quer e nao alcança, de quem anseia pelo vazio, choro do que falta e de quem falta.
Faltam-me os teus ouvidos. Faltam-me os teus olhos enormes e expressivos, falta-me o teu sorriso sempre caloroso. Falta-me que me chames e me abraces, que me leves a almoçar e a passear, que desabafes e me ouças como sempre foste, os meus melhores ouvidos. Ouvidos de fala, ouvidos de música, que sumiu, que esvaneceu, que apodreceu dentro de mim. Não quero mais ouvi-la, não quero mais senti-la, não quero mais!
Para onde iria a grua? Porquê ânsia? Levar-me-ia até ti? 
Falavas comigo com uma enorme presença e acordei a desejá-la ardentemente. Vazio. Revolta. Não quero mais levantar-me da cama, neste dia. Quero que o despertador não tenha tocado, quero voltar a adormecer, quero voltar à praia. Volta, cabeça maldita! Não vai acontecer.
Fé? Que raio de fé é a que nos leva a pensar que no ar estás tu?  Que nem o cheiro lá paira? (era o que dirias). Mas tenho de a ter. A fé de que estás comigo e que estás feliz por mim.
Voltei a escrever hoje. Um escrever molhado. Um escrever rápido que tanto evita as palavras como as vomita repentinamente. Foi isso, um vómito de dor que precisava sair. Preciso escrever mais mas não sai nada. 
Levar-me-ia a grua ao céu para gritar mais alto e chamar por ti?
"Volta!"
Por favor.

Bibocas

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Vem...

Quando nada faz sentido e a saída não se vê, há sempre alguém à espera de ver o nosso sorriso. Há sempre alguém que está lá para ver cair uma lágrima pela face mesmo que não queira, que ouve a minha música em silêncio. Por vezes, quando escolhemos o caminho «certo», descobrimos as consequências e mesmo assim continuamos. Agora, quando erramos e seguimos o sexto sentido dos sentidos, as voltas podem terminar numa linha infinita. A linha do futuro, dos laços que não quebram, do amor que não termina nunca mais, da estrada sem fim.
O medo de envergar é substituído pelo medo de cair. A pequena queda que sangra mais que uma hipotética avalanche de derrocada.
Por isso, vamos facilitar, mergulhemos os dois.

O Eu antes de Ti

E se um dia vivessemos tabelados,
Pela disciplina rotulada na testa?
Onde ficaria então a loucura?
Onde ficaria então a paixão?

E se um dia despejássemos
Toda a alegria
E o rejuvenescer
Por águas abaixo?

Pararia toda a fantasia.
Subornaríamos os sentimentos
E pagaríamos um preço pelo enjoo de viver.

Já fomos assim.
Pequenos de alma...

Naqueles momentos
em que encolhe tudo à nossa volta
E nem a própria roupa nos serve no coração.
Fica a esperança a pairar
como o fumo de cada incêndio
Irrita! Mas não despega.

Sobrevivência meus caros...
Está tão dispendiosa como...
Como o brilhantismo está extinto das luzes
Que outrora iluminaram vidas.

Fogo de amor.
Tem estado ausente.
Porque a desilusão fez evaporar a palavra.
Mas o esquecimento,
Tem estado presente.
Porque a memória pode apagar-se...
Mas nunca se esquece.

E que tal a sociedade
fazer juras de amor
à sua própria vontade
uma vez na vida?

domingo, 16 de setembro de 2012

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Corrida.


O vento corria forte e armado. A ninfa saiu das profundezas de seu lar. Esbelta, sensual e perfeitamente esculpida. Um raio de sol atravessou-lhe aqueles penetrantes e verdes olhos que a confundiam com a humidade das folhas de seu lar.
Bastou-lhe um ruído para logo ser atraída para ele. Sem pensar, aquela ninfa planou juntamente com a brisa e seguiu o som do seu coração, do seu desejo. As palpitações eram como o ritmo de fundo no silêncio daquela floresta. E Ela, hipnotizada, deixou-se levar pelo som que a seduzia.
Chegou à armadilhada ruptura de uma raíz de uma àrvore estrondosamente forte que a chamava para o seu abraço. Uma beleza protectora que a quis envolver. E aquela cortina ruiva de um ser diferente esvoaçou... até que uma brisa lhe raptou o seu aroma e levou aquele perfume ao olfacto do carvalho. Daquele ser centenário e eternamente consciente. Que a desejava e se queria perder na sua ilusão e no seu corpo.
Mas aquela representação feminina que dava brilho a cada ramo do tronco forte possuía uma esperteza fora do comum e decidiu entrar no jogo. Escondia-se na sombra das suas folhas impedindo-o de a contemplar. E, nessas alturas, o vento soprava mais forte na esperança desesperada de poder afastar o verde da sua frente, de poder descortinar o seu amor.
Mas ela fazia-se cada vez mais difícil a cada passada, testando o mais santo paciente da floresta. Sem consequência, era uma menina num corpo de mulher, o olhar turvo pelo brilho estonteante das suas esmeraldas que fazia desse o olhar mais meigo e misterioso alguma vez contemplado.
A velhice daquela árvore pareceu não se querer dar por vencida e lutou com as poucas forças que tinha para se poder mover naquela dança nupcial. E foi aí que vi pela primeira vez uma árvore com vida movida pelo amor da sua ninfa que, das sombras mais profundas, libertava um rasto de brilho a cada movimento seu.
E a dança durou iluminada pelo pôr-do-sol e depois pela lua que alta brilhava essa noite. Durou para aquela que se pode chamar "a eternidade de uns minutos" envolvidos um no outro apenas pelo olhar fazendo juras de uma vida completa, fundidos num só.


Fecho o livro. Apago a luz. Boa noite.

sábado, 23 de junho de 2012

Refresh

Momento de falta de inspiração. Bastava inspirar o ar que me rodeava para ficar "completa". O pensamento atulhado mas as palavras não queriam sair. Momento de reflexão. De deixar desaguar o rio da convergência de emoções em águas saturadas. Momento de parar. Altura em que me inclino sobre os joelhos já em sangue das sucessivas quedas à beira do lago, apenas para refrescar a cara do suor provocado pelo trabalho. Trabalho árduo, o de me fazer compreender.
Momento de ouvir apenas, e de não o conseguir expressar. Observar a frescura repleta de flores, jovens e belas, daquelas que nunca quebram por mais que o vento sopre. A menos que lhes cortem as asas do voo. 
Subitamente perco a cor. E vejo-me passear num mar de gente com auras dispersas. Transparente e invulgarmente inquieta. Um longo cabelo e um vestido que a mim parecia branco. Mas pareceu que ninguém via o seu puro brilho de neve. Foi como se eu fosse uma atriz prestes a fazer um monólogo, ou mesmo um aparte. Como se o som da televisão subitamente tivesse desaparecido e o foco de luz no palco se virasse na minha direcção, em grande expectativa. Aquele momento em que tenho de dizer a coisa certa, de fazer a coisa certa para deixar o "grande público" satisfeito.
Como se fosse um vulto esguio trespasso todas as portas para encontrar a de saída. Mas entro numa sala de espelhos. E obrigo-me a ter de encontrar a palidez daquele branco agora pouco vivo, numa perspectiva de 360º.
Momento de encarar o que é real. O que está à vista e o que apenas eu via, ou achava que via. Encontro a porta e vejo-me na rua repleta da multidão outra vez. O vestido continuava branco. Mas eu tinha a mesma cor de todos os que roçavam ligeiramente o ombro no meu a tentar esgueirar-se dos obstáculos dos seus caminhos, os de passagem. Momento de sorrir para o céu, dizer olá ao sol e a todas as estrelas que de lá me observavam.
Momento de sonhar. Momento do reecontro com alguém que tem estado longe e que nessa noite pareceu tão perto. Aquela blusa fresca ainda que de cor negra com ligeiros pontos brancos aqui e além demarcavam o seu sorriso sincero e o seu ar maternal. Aquela pessoa que sempre que quero e não posso tento ver. Momento de me obrigar a guardar para sempre aquele eterno abraço de resposta a todas as dúvidas. Mas a sua visita torna-se curta e desvanece-se num sopro, mal os olhos se abrem e a vista fica ofuscada com a presença da luz de uma nova manhã.
Momento de análise. De avaliar todos os sinais que me são apresentados. De montar as peças do puzzle. De abdicar pela felicidade de outros e de tentar a minha. De desiludir uns e tentar deixar os pássaros da minha vida saírem do ninho para procurarem felicidade noutro lugar. Momento de estar com os amigos e sorrir sempre. Momento de deixar voltar a inspiração. Deixar fluir.
É apenas mais um ciclo.